Fase Delta
Energia solar · estudo de caso

O Fio B inviabiliza a energia solar? O que mostra uma simulação de 25 anos

A Lei 14.300 passou a cobrar uma parte do Fio B sobre a energia que a geração injeta na rede, e a pergunta que todo projetista ouve é se ainda vale a pena. Um trabalho de conclusão de curso em Engenharia Elétrica na UFT simulou, hora a hora e com dados climáticos reais de Palmas, o mesmo sistema de 12,87 kWp em seis cenários: com e sem o Fio B, com e sem baterias, para um consumo comercial e um residencial. A resposta curta: o Fio B reduz o retorno, mas não inviabiliza o sistema; quem decide quanto ele pesa é o horário do consumo.

Por Mateus Rodrigues, engenheiro eletricista, a partir do trabalho de conclusão de curso que escreveu em Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Tocantins (2025).

O módulo de energia solar do Fase Delta dimensiona a microgeração conectada à rede, com a conta de cada número. Beta Em Beta: já dá para usar, e ainda vai mudar com o que os projetistas nos contarem.

O que o estudo encontrou

Os indicadores de 25 anos, para o mesmo sistema e a mesma energia consumida por dia. Só muda o horário do consumo e a forma de lidar com o excedente.

Payback descontado e TIR em cada cenário (tabelas 2 e 3 do estudo)
CenárioComercial: paybackComercial: TIRResidencial: paybackResidencial: TIR
Sem bateria, sem Fio B2,56 anos49,62 %2,56 anos49,62 %
Sem bateria, Fio B integral3,03 anos43,04 %5,62 anos26,76 %
Com bateria, sem injeção3,95 a 5,44 anos27,19 %não se paga em 25 anos−2,39 %

Resultados do trabalho de Mateus de Souza Rodrigues (UFT, 2025), com as premissas da seção "Como o estudo foi feito". Na bateria do perfil comercial, o prazo maior é com o preço de mercado do estudo e o menor com a bateria 70 % mais barata.

  • No perfil comercial, cobrar o Fio B inteiro alongou o payback de 2,56 anos para 3,03 anos: quase nada, porque quase toda a geração é consumida na hora.
  • No residencial, o mesmo Fio B levou o payback de 2,56 anos para 5,62 anos e a TIR de 49,62 % para 26,76 %. Ainda é um bom investimento.
  • A bateria, usada para não injetar nada na rede e fugir do Fio B, foi a pior opção nos dois perfis. No residencial, não se pagou em 25 anos (TIR de −2,39 %).

O que o Fio B muda no valor do kWh injetado

O kWh consumido na hora da geração vale a tarifa cheia. O kWh injetado e compensado depois perde a parte do Fio B que a regra do ano cobra.

O estudo usa as tarifas da Energisa Tocantins (REH ANEEL nº 3.340/2024): TE de R$ 0,26472 e TUSD de R$ 0,55830 por kWh, dos quais R$ 0,38570 são o Fio B, com ICMS de 20 % e PIS/COFINS médio de 5 %. Com os tributos, o kWh comprado da rede sai a R$ 1,08. Com o Fio B cobrado por inteiro, o kWh injetado e compensado vale R$ 0,58, 53 % do consumido.

Quanto vale o kWh injetado e compensado, ano a ano, com as tarifas do estudo
AnoFração do Fio B cobradakWh injetado valeEm relação ao consumido
2022 (antes da lei valer)0 %R$ 1,08100 %
202315 %R$ 1,0193 %
202430 %R$ 0,9386 %
202545 %R$ 0,8579 %
202660 %R$ 0,7872 %
202775 %R$ 0,7065 %
202890 %R$ 0,6358 %
2029 em diante90 %R$ 0,6358 %

Cálculo com as equações 1 e 2 do estudo e a fração do Fio B de cada ano como o Fase Delta a aplica (guia da Lei 14.300). Tarifas sem reajuste, para comparar os anos entre si. O estudo simulou os dois extremos, 0 % e 100 % do Fio B, que contêm todos os anos da tabela.

Entender a regra de cada ano, e quem fica na GD I, está no guia da Lei 14.300 e do Fio B.

Como o estudo foi feito

Um algoritmo em Python (pandas, NumPy, Matplotlib e numpy-financial) simula a geração hora a hora, faz o balanço de energia de cada dia e calcula o fluxo de caixa de 25 anos.

  1. Clima: irradiância no plano inclinado e temperatura ambiente horárias de um ano em Palmas, do INMET. Média de 487,77 W/m² (máxima de 1.175 W/m²) e de 28,93 °C, com pouca variação ao longo do ano.
  2. Geração: a temperatura da célula pelo NOCT, a potência CC corrigida pelo coeficiente de temperatura do módulo, as perdas CC (2,0 % de dispersão, 2,5 % em diodos e cabos, 15 % de sujeira), o rastreamento do MPPT e a eficiência do inversor pelo modelo de Martín (1998), com o autoconsumo do inversor e o limite de potência dele.
  3. Degradação dos módulos de 2 % no primeiro ano e 0,5 % nos seguintes: a geração cai de 18.026 kWh no primeiro ano para 15.982 kWh no 25º, cerca de 89 %.
  4. Balanço de cada hora, nesta ordem: o consumo instantâneo; o excedente carrega a bateria (sem injeção) ou vai para a rede; a bateria supre o consumo; o que faltar vem da rede.
  5. Finanças: o rendimento é a energia consumida na hora vezes a tarifa de consumo, mais a injetada vezes a tarifa de injeção; o fluxo de cada ano desconta a degradação, a manutenção, o financiamento e, com bateria, a troca dela no fim da vida útil. Daí saem o VPL, o payback descontado e a TIR.
O sistema e as premissas do estudo
ItemValor
Gerador fotovoltaico12,87 kWp
Inversor7,5 kW, eficiência de 94 %, 97 % e 94 % a 10, 50 e 100 % da carga
Banco de baterias (cenário sem injeção)7,92 kWh, descarga até 90 %, troca a cada 15 anos
Custo do sistema de geraçãoR$ 2.349,10 por kWp, mais R$ 633,00 por kWp de instalação
Custo do armazenamentoR$ 2.586,00 por kWh de bateria
Manutenção1 % do investimento por ano
Financiamento50 % do valor, a 10 % ao ano, em 25 anos
Reajuste da tarifa5 % ao ano
Horizonte25 anos (a garantia usual dos módulos)

Os seis cenários

Dois perfis de consumo com a mesma energia por dia: o comercial consome das 7h às 19h, quando há sol; o residencial, fora desse horário. Cada um com três jeitos de tratar o excedente.

Os cenários simulados (quadro 3 do estudo)
CenárioPerfilConexãoFio B sobre o injetado
1ComercialOn grid, injeta o excedente0 %
2ComercialOn grid, injeta o excedente100 %
3ComercialGrid zero, com baterianão se aplica (não injeta)
4ResidencialOn grid, injeta o excedente0 %
5ResidencialOn grid, injeta o excedente100 %
6ResidencialGrid zero, com baterianão se aplica (não injeta)

Os 100 % do Fio B são o pior caso, de propósito: a regra de transição cobra uma fração menor nos primeiros anos. Os 0 % são a compensação de um para um de antes da lei. A realidade de um sistema da GD II fica entre os dois.

Por que o horário do consumo pesa mais que o Fio B

Fluxo de caixa do primeiro ano em cada cenário (quadros 4 e 5 do estudo)
CenárioComercialResidencial
Sem bateria, sem Fio BR$ 17.113,42R$ 17.113,42
Sem bateria, Fio B integralR$ 14.556,20R$ 8.230,76
Com bateria, sem injeçãoR$ 13.001,11−R$ 363,93

Sem o Fio B, os dois perfis rendem exatamente o mesmo: a compensação é de um para um, a qualquer hora, e a energia do dia é a mesma. Com o Fio B, o comercial quase não sente, porque consome a geração no mesmo instante e injeta pouco. O residencial injeta quase tudo de dia e compra à noite, e cada kWh que passa pela rede perde o Fio B.

Por isso a pergunta certa para cada cliente não é "o Fio B inviabiliza?", e sim "quanto da geração ele consome na hora?". No projeto solar do Fase Delta, essa é a simultaneidade, que entra na estimativa de economia ao lado da regra GD I ou GD II e da fração do Fio B de cada ano.

E as baterias para não injetar?

O sistema grid zero guarda o excedente na bateria em vez de injetar, e assim não paga Fio B sobre nada. Mas a bateria custa caro e precisa ser trocada: no 15º ano, a troca derruba o fluxo de caixa do ano. Com o preço de mercado usado no estudo, o comercial se pagou em 5,44 anos, e o residencial não se pagou.

O estudo baixou o custo da bateria de 10 % em 10 %, até 70 % mais barata. Mesmo assim, o payback do comercial (3,95 anos) continuou maior que o do sistema sem bateria pagando o Fio B inteiro. A bateria pode virar opção conforme o preço cair e a tarifa subir, mas, com os números do estudo, injetar e pagar o Fio B ainda dá mais retorno.

Os limites do estudo

Os números valem para as premissas do estudo; outras premissas mudam os números, não necessariamente a comparação.

  • Um local (Palmas, com sol constante o ano todo), um sistema e uma tarifa (Energisa Tocantins, 2024).
  • Perfis de consumo idealizados: todo o consumo dentro ou todo fora do horário de sol. Um cliente real fica no meio.
  • O payback é curto porque o modelo financia metade do sistema e reajusta a tarifa em 5 % ao ano; o estudo não separa o retorno do capital próprio.
  • Ficaram de fora a tarifa branca, a tarifa dinâmica, incentivos fiscais e outras proporções entre a potência instalada, o consumo e a bateria.

Como citar: RODRIGUES, Mateus de Souza. Desenvolvimento de algoritmo para avaliação do impacto da cobrança do Fio B na viabilidade da microgeração fotovoltaica: estudos de casos em perfis de consumo residencial e comercial. 2025. 54 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia Elétrica) - Universidade Federal do Tocantins, Palmas, TO, 2025. Orientador: Prof. Msc. Alex Vilarindo Menezes.

Perguntas frequentes

O Fio B inviabiliza a energia solar?

Não, nos casos estudados. Com o Fio B cobrado por inteiro, o pior caso, o sistema sem bateria se pagou em 3,03 anos no perfil comercial e em 5,62 anos no residencial, com TIR de 43,04 % e 26,76 %.

Quanto o Fio B reduz o retorno do sistema solar?

Depende de quanto a geração é consumida na hora. No consumo comercial, de dia, a TIR caiu de 49,62 % para 43,04 %; no residencial, à noite, caiu para 26,76 %.

Vale a pena usar bateria para não pagar o Fio B?

Com os custos do estudo, não. A bateria foi a pior opção nos dois perfis e, no residencial, não se pagou em 25 anos. Mesmo 70 % mais barata, ela rendeu menos que injetar e pagar o Fio B.

Esses números valem para o meu cliente?

Valem como ordem de grandeza para Palmas e uma tarifa parecida. Para um projeto, refaça a conta com a tarifa da distribuidora, o consumo da conta e a parcela consumida na hora: é o que o projeto solar do Fase Delta estima.

Quem fez o estudo?

Mateus de Souza Rodrigues, como trabalho de conclusão de curso em Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Tocantins (2025), com orientação do Prof. Msc. Alex Vilarindo Menezes.

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